O PEQUENO PRÍNCIPE: MUITO ALÉM DO LIVRO

Em 27 de janeiro de 2026

Em Itaipava, longe dos holofotes e do ritmo acelerado das grandes cidades, uma fazenda guarda uma história que conecta literatura e aviação. Reconhecida por ter abrigado pilotos franceses no início do século XX, entre eles Antoine de Saint-Exupéry, autor de O Pequeno Príncipe, a histórica La Grande Vallée é hoje um espaço cultural que convida o visitante a ir além das páginas do livro.

 

Localizada na Estrada do Ribeirão Grande, nº 102, a propriedade pertence há quase um século à família de José Augusto Wanderley, responsável por manter viva a memória do lugar. Aberta à visitação desde 2016, a casa funciona também como residência do anfitrião, que literalmente abre suas portas para conduzir os visitantes por uma jornada que começa na história da aviação e pousa na vida e na obra de Saint-Exupéry.

 

Apaixonado por tudo o que envolve naves e seus pilotos, José Augusto costuma dizer que acorda e dorme com a cabeça nas alturas. É em sua varanda que histórias ganham asas: ali, ele narra o passado da fazenda, que no início do século XX servia de refúgio para pilotos da Aéropostale, a primeira companhia aérea a transportar correspondências da Europa para a América do Sul. Durante as escalas no Brasil, os aviadores trocavam o alojamento em Campo dos Afonsos, no Rio de Janeiro, pela tranquilidade da serra de Itaipava.

 

Acostumados a encarar a morte a cada voo, os pilotos encontravam na fazenda um espaço de descanso e celebração. Cavalgadas, festas embaladas por gramofones, vinhos e queijos faziam parte da rotina, momentos em que deixavam de agir como “pessoas grandes”. Uma vibração leve e criativa que, segundo José, ainda hoje parece habitar a casa.

 

Descrito por ele como um “poeta aviador”, Saint-Exupéry foi piloto militar e testemunhou de perto os horrores da guerra, experiências que atravessam sua obra. Não é difícil imaginar o alívio que deve ter sido encontrar esse pequeno paraíso na serra fluminense, um lembrete constante de que crescer não é o problema, mas esquecer a essência, sim.

 

Ao longo da visita, referências a O Pequeno Príncipe surgem como peças de um quebra-cabeça que ajudam a compreender a vida do autor. A chamada Pedra do Elefante, no Taquaril, em Itaipava, pode ter inspirado o famoso desenho da jiboia digerindo um elefante, vista pelos adultos apenas como um chapéu. Coincidência ou não, a ligação desperta curiosidade.

 

O acervo da casa reforça o encanto da experiência. O espaço reúne edições do livro em várias línguas, além de interruptores, caixinhas, maletas, luminárias, almofadas e até uma versão “jovem” do principezinho, de jaqueta e calça jeans, explorando La Grande Vallée. Soma-se a isso a impressionante coleção de cerca de seis mil miniaturas de José Augusto, com carros, ônibus, réplicas cinematográficas e uma detalhada simulação da antiga Estrada de Ferro Leopoldina, com locomotiva em movimento, faíscas e fumaça.

 

As visitas acontecem de quinta-feira a domingo, às 11h, mediante agendamento pelo telefone (21) 99354-3179.

 

Em La Grande Vallée, o tamanho dos visitantes não importa. Ao final do percurso, todos, sem exceção, deixam-se cativar e assumem, ainda que por algumas horas, o espírito do Pequeno Príncipe.

 

Saiba mais em: https://www.lagrandevallee.com/